segunda-feira, 19 de maio de 2008

carta do Tiago Malato para o pai Almirante

Do Tiago Malato para o Tio Té, por via de sua família

Daqui, de Castelo de Vide, lhe envio um abraço. Se não for possível o passar a si, o entrego na mesma através dos seus. Gostava de lhe dizer pessoalmente, olhando no fundo dos seus olhos, o que direi desprovido aqui. Em jeito de história.

Em minha casa, em casa de meus pais, Andrade e Silva, ou simplesmente Té, sempre foi sinónimo de amizade forte e pura. Lembro que, na minha infância, o seu nome surgia como alguém muito próximo e ao mesmo tempo desconhecido e longe, porque fisicamente ausente. Conhecíamo-lo pelos sentidos do meu pai. Entre outros, como o Tio Braula, mas com uma intensidade particular como de resto é próprio de uma amizade distinta. Lição apreendida: é possível ser-se amigo, sempre, eternamente, mesmo que longe fisicamente, ou mesmo, ao limite, sem existência física. O meu pai falava de si como “o amigo”. Amizade descontraída, consumada em valores partilhados, de honra, justeza, determinação e firmeza na forma de estar. Parte do respeito que vos tenho deve-se precisamente à ideia de serem neste porte tão semelhantes, enquanto homens paradoxalmente simples e complexos.

Destes dois amigos que de longe acompanho como acréscimo, porque apenas filho de um sou, tenho a presciência de uma comunhão descontraída, invulgar na minha geração. Habituados que estamos a consumirmo-nos cada vez mais em imediatismos fúteis, tantas vezes adiando aquilo que nos transcende e que realmente confere sentido à vida e, por conseguinte, à eternidade. Gostaria de lhe dizer tio, que tomo de si o exemplo, tal como de meu pai, de homens singulares e justos. Para além do tempo. Que o vosso tempo, a vossa dimensão ainda não chegou. E para isso nos empenhamos nós, os filhos. Com o meu pai costumo pensar, que os meus olhos são a continuação dos seus. E de todos aqueles a quem emprestou a sua perspectiva tocando-os pela educação. Seus filhos. Desde que ele resolveu desencarnar, o sinto em mim mais presente, tranquilo e forte. Ou não sejamos nós, filhos, amigos, irmãos, a continuação e o futuro dos nossos. A verdadeira marca do tempo e da herança que queremos sempre honrar e dela ser veículo. Lição apreendida: Perpetuamo-nos uns nos outros pelo exemplo simples, pelas sensibilidades e perspectivas que nos passam os pais e que por nossa via transmitimos aos filhos. Esse é o verdadeiro sinal de amor e cruz na fé cristã. Multiplicamo-nos na comunhão. Na amizade desinteressada. No fio que nos faz humanidade. Na forma positiva como passamos pela vida.

Entendo hoje tão bem, sem ter ideia sequer da vossa cumplicidade amiga, como podem os senhores ser amigos. A vossa amizade sempre esteve para além do tangível. Ocupando com vida o espaço de quem se reconhece na bondade, na forma de dar desprendidamente, na aspereza aparente de quem não prescinde de ser justo. E recto.

Da vossa estirpe continuo a apreender. Alinhando tantas vezes o rumo da vida que tomo. Hoje, tudo passa aparentemente rápido. Todavia o prumo da vida mantém-se indiviso e estável. E são pais como os nossos que lhe asseguram verticalidade. Esperança, futuro, horizonte e intemporalidade. Saibamos nós filhos honrar essa linha fina, que atravessa o tempo, todos os tempos, cerzindo encontros, convicções e amizades.

Beijo fraterno do filho de seu amigo

Tiago Malato

P.S. Registo de si e da tia Carmo algumas lições de valor, elevação e educação. Algumas, guardo-as no meu íntimo pois que é esse o espaço que sempre habitaram. Outras contam-se em família com alguma frequência, como um jantar surreal de anos de meu pai, onde estiveram alguns dos seus verdadeiros amigos, o tio Té e a Tia Carmo, o tio Braula a e tia Geia. Um dia contarei a seus filhos. E riremos todos juntos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Para o Tiago Malato
Depois de mais uma noite passada com o meu Almirante vim a casa retemperar forças, tomar banho etc.. E abri o blog e li a tua CARTA . Chorei de emoção . gratidão tristeza e alegria tudo misturado . Que maravilha haver pessoas como tu como os teus Pais . Obrigada pelas tuas palavras que vou levar ao Tio Té
Um beijinho com imensa ternura
Tia Carmo